A 65ª Casa: o que meus filhos me ensinaram sobre o que realmente forma um enxadrista
Eu não jogo xadrez. Mas o xadrez me ensinou algumas das lições mais importantes da minha vida.
Sou pai de dois jovens enxadristas, Bento e Ana Helena. Dois atletas que, ainda crianças, aprenderam a conviver com competições, títulos, expectativas, adversários experientes e uma rotina de preparação que exige muito mais do que talento.
Ao longo dessa jornada, acompanhei conquistas extraordinárias. Vi meus filhos levantarem troféus, conquistarem títulos importantes e enfrentarem jogadores muito mais velhos.
Mas também estive ao lado deles nos momentos que não aparecem nas fotografias.
Nas derrotas difíceis de compreender. Nos empates que pareciam derrotas. Nas lágrimas contidas depois de uma partida. Na frustração de quem estudou, se preparou e, mesmo assim, não conseguiu transformar seu esforço no resultado esperado.
E foi justamente nesses momentos que comecei a compreender algo que mudaria profundamente minha maneira de enxergar a formação de um atleta.
Nem sempre o maior adversário de uma criança está sentado do outro lado do tabuleiro.
Às vezes, ele está dentro dela.
É o medo de decepcionar. A necessidade de corresponder às expectativas. A comparação com outros jogadores. A dificuldade de aceitar o próprio erro.
E, sobretudo, aquela sensação silenciosa de que uma derrota pode diminuir tudo aquilo que ela já conquistou.
Quando o resultado começa a pesar mais do que a partida
Existe uma diferença enorme entre querer vencer e sentir que precisa vencer.
A primeira condição alimenta a ambição, o esforço e a dedicação.
A segunda pode aprisionar.
Percebi isso acompanhando Bento e Ana Helena em suas competições.
Uma criança pode passar horas estudando determinada posição, calcular variantes complexas e demonstrar enorme criatividade durante os treinamentos.
Mas, diante do relógio, do adversário e da importância atribuída ao resultado, algo pode mudar.
Ela deixa de jogar apenas a posição.
Começa a jogar também contra suas expectativas, seus receios e tudo aquilo que imagina estar em jogo.
O tabuleiro permanece o mesmo.
O que muda é o peso emocional colocado sobre ele.
E nenhuma preparação técnica, por mais sofisticada que seja, resolve sozinha essa questão.
A lição que aprendi depois das derrotas
Como pai, naturalmente, sempre quis proteger meus filhos das frustrações.
Mas o esporte me ensinou que protegê-los de toda frustração seria também privá-los de uma parte importante do crescimento.
A questão nunca foi impedir que sofressem diante de uma derrota.
Foi ajudá-los a compreender que uma derrota não define quem são.
Lembro-me de situações em que uma partida terminava, mas continuava sendo jogada emocionalmente durante horas.
O lance que não deveria ter sido feito. A oportunidade desperdiçada. A vantagem que desapareceu.
A criança já havia saído do tabuleiro, mas sua mente permanecia presa à posição anterior.
Foi nesse contexto que uma ideia ganhou força dentro de mim:
Não conserte a jogada anterior. Resolva a posição atual.
Essa frase parece simples.
Mas contém uma lição que ultrapassa os limites do xadrez.
Não podemos modificar o que aconteceu. Podemos compreender, aprender e decidir o que fazer a partir da realidade que existe agora.
E isso vale para uma partida, para um torneio e para a própria vida.
O que o Transurfing acrescentou à minha maneira de pensar
Em meus estudos e reflexões sobre comportamento, encontrei nos conceitos filosóficos do Transurfing, de Vadim Zeland, uma linguagem interessante para compreender algumas dessas experiências.
Especialmente a ideia de que atribuir importância excessiva a determinados acontecimentos pode aumentar nossa tensão e comprometer a maneira como agimos.
Não trato o Transurfing como ciência comprovada, tampouco como uma explicação física para o comportamento humano.
Utilizo suas ideias como metáforas para refletir sobre atenção, escolhas, expectativas e capacidade de adaptação.
E o xadrez oferece um ambiente extraordinário para explorar essas questões.
Cada posição apresenta possibilidades.
Cada escolha produz consequências.
Nem sempre o melhor plano funciona. Nem sempre a posição evolui como imaginávamos.
O adversário também decide. O relógio continua correndo. O cenário muda.
E o jogador precisa aprender a responder à realidade, não àquilo que gostaria que estivesse acontecendo.
Foi então que compreendi que talvez estivéssemos dedicando muita energia à formação técnica dos nossos filhos sem dar a mesma atenção, de maneira estruturada, à forma como eles vivenciam emocionalmente essa formação.
E nós, pais? Qual é o nosso papel?
Essa talvez tenha sido a parte mais desafiadora da minha própria aprendizagem.
Porque é muito fácil observar a ansiedade de uma criança.
Mais difícil é reconhecer a nossa participação na construção dessa ansiedade.
Quantas vezes perguntamos o resultado antes de perguntar como ela se sentiu?
Quantas vezes, com a melhor das intenções, transformamos uma competição em algo maior do que ela realmente precisa ser?
Quantas expectativas colocamos, silenciosamente, sobre os ombros dos nossos filhos?
Aprendi que não basta dizer a uma criança que o resultado não importa, enquanto nossas expressões, reações e conversas demonstram exatamente o contrário.
A criança percebe.
E carrega.
Por isso, passei a me fazer uma pergunta antes de cada competição:
O que estou colocando emocionalmente na mochila dos meus filhos antes de eles se sentarem diante do tabuleiro?
Confiança ou cobrança?
Segurança ou expectativa?
Liberdade para jogar ou obrigação de corresponder?
Não tenho a pretensão de afirmar que sempre encontrei as respostas certas.
Continuo aprendendo.
Mas hoje compreendo que a formação emocional de um jovem atleta começa, muitas vezes, muito antes do primeiro lance.
Começa dentro de casa.
Como nasceu a ideia da 65ª Casa
O xadrez possui 64 casas.
Dentro delas, possibilidades incontáveis, decisões difíceis, erros, descobertas e caminhos que se transformam a cada lance.
Mas comecei a perceber que existia uma dimensão da formação que não cabia inteiramente naquele tabuleiro.
Era o espaço da relação entre a criança, sua família, seus treinadores, suas expectativas e sua própria identidade.
Um espaço onde se aprende a lidar com a pressão, a aceitar os erros, a reconhecer emoções e a continuar fazendo escolhas mesmo quando as coisas não acontecem como esperado.
Foi dessa reflexão que nasceu a Mentoria A 65ª Casa.
Não como uma promessa de títulos.
Nem como uma fórmula para transformar crianças em campeões.
Mas como uma proposta de formação mental que utiliza situações reais do xadrez para desenvolver presença, autorregulação, autonomia, clareza nas decisões e uma relação mais saudável com a competição.
Uma metodologia inspirada em conceitos do Transurfing, traduzidos em comportamentos, exercícios e experiências que possam ser trabalhados com jovens enxadristas e suas famílias.
Porque acredito que a formação de um atleta não deve ser medida exclusivamente pelo que ele conquista.
Também precisa considerar quem ele está se tornando durante o caminho.
O que desejo para Bento e Ana Helena
Quero que meus filhos continuem sonhando alto.
Que desejem vencer, conquistar títulos, enfrentar os melhores e descobrir até onde podem chegar.
Não quero diminuir suas ambições.
Quero ajudá-los a construir uma relação saudável com elas.
Quero que Bento compreenda que um lance ruim não apaga sua capacidade.
Que Ana Helena consiga reconhecer a própria força mesmo quando o resultado não corresponde ao que esperava.
Que ambos aprendam a competir intensamente sem transformar cada partida em um julgamento sobre seu valor.
E, principalmente, que possam continuar amando o xadrez.
Porque seria uma contradição dolorosa dedicar tantos anos à formação de dois atletas e, ao final, perceber que a busca pela vitória havia retirado deles a alegria de jogar.
Não quero que meus filhos precisem vencer para se sentirem suficientes.
Quero que se sintam seguros para continuar crescendo, inclusive quando perdem.
Muito além dos resultados
A Mentoria A 65ª Casa nasce da minha experiência como pai, da convivência com o xadrez de alto rendimento na infância e da percepção de que famílias e treinadores precisam olhar com mais atenção para aquilo que acontece emocionalmente durante essa jornada.
Não apresento minha experiência pessoal como comprovação científica de uma metodologia.
Ela é o ponto de partida de um trabalho que pretendo estruturar, desenvolver, observar e aperfeiçoar continuamente.
Se conseguirmos ajudar uma criança a se recuperar emocionalmente depois de um erro, a pensar com clareza sob pressão ou a compreender que seu valor não depende de uma medalha, já estaremos trabalhando competências que ela poderá levar para muito além das competições.
Talvez ela se torne mestre.
Talvez alcance títulos que hoje sequer conseguimos imaginar.
Mas, independentemente de onde chegue, espero que tenha aprendido algo ainda mais importante:
A vida, assim como o xadrez, não permite controlar todas as circunstâncias. Mas sempre nos convida a decidir como responder a elas.
E, se existe uma lição que Bento e Ana Helena vêm me ensinando, é esta:
Antes de formar campeões, precisamos cuidar das crianças que existem dentro dos atletas.
Porque os troféus ocupam as prateleiras.
Mas é a maneira como aprendemos a enfrentar a vida que permanece conosco.